24 de agosto próximo Jorge Luis Borges se vivo estivesse completaria 110 anos. Um autor mitificado que parece estar ainda vivo completando 110 anos, assim como convém a qualquer entidade. Livros sobre ele e dele começam a ser disponibilizados nas livrarias. Ornarão estantes sem nunca serem lidos. São textos considerados de difícil compreensão com os quais me deparei saindo da adolescência. Eram dois livros a serem devorados e que mereciam um esforço pessoal, Aleph de Borges e Grande Sertão Veredas de Guimarães Rosa. Ataquei Borges como quem se prepara para o vestibular. Em cada linha se buscava um sentido, na vírgula se buscava uma intenção. O esforço foi em vão. O livro se tornava chato e nada fazia sentido. Abandonado por um tempo na estante o livro me seguia e me inquiria com olhos toda vez que outro livro que não ele era escolhido. Um dia descobri a beleza de ler Borges. Por questões de estudo já na universidade fui obrigado a ler “A Palavra e as Coisas” de Michel Foucault e cujo prefácio dizia que o livro nasceu de um texto do Borges que cria “uma certa enciclopédia chinesa” onde vem escrito que os animais se dividiam em a) pertencentes ao imperador, b) embalsamados, c) desenhados com pincel muito fino de pêlo de camelo, e assim seguia a tal enciclopédia com classificações difíceis de acreditar dentro a nossa racionalidade. Borges é isso, um fraudador que mistura ficção e realidade. É capaz de criar o conto “Almotásin”, de 1935 onde escreve uma resenha de um livro indiano que estava sendo reeditado. Esse livro é fruto da imaginação do Borges. O livro não existe o editor e a editora citados são reais. Há informações que gente menos desavisada encomendou o livro. Esse é Borges que mistura o real e a ficção. Tudo é virtual, nada existe por que o real existe. Para que Borges pudesse ser consumido pelos leitores americanos foi preciso editar sua biografia. Essa biografia saiu no New Yorker em 1970. Assim como seu escritos uma mistura de realidade e ficção. É a realidade reinventada na qual o que vale é a história. Para Borges as situações criadas, as surpresas, as fantasias é o que vale ser escrito. A fantasia é tudo. Borges elege como grandes livros“As 1000 e uma Noites” e “Dom Quixote”, ele próprio um sonhador de armadura brilhante e enfrentar moinhos. Borges inventa o Aleph, A Biblioteca de Babel. É o livre criar só criar. Como se dizia nos anos 70 é um desbunde. Toda forma de criar vale a pena. Borges tem o domínio das linguas clássicas e moderna o que confere uma erudição e um estranhamento no primeiro momento. Borges faz parte da geração do início do século passado que rompe com o racionalismo, assim como o dadaismo, para criar e assim persiste até sua morte em junho de 1986 sem se deixar subjugar pela indústria cultural. Ler Borges e como se tomássemos aquele absinto do final do século 19 para nos tirar da realidade e voar nas asas de imaginação.

Semana passada vi o filme Sideways -- entre umas e outras, em que um personagem diz ao protagonista (suposto escritor) que não fazia sentido inventar histórias com tanta coisa que temos a contar dessa vida. Talvez ele não tenha lido Borges, né? Acho até que o raciocínio dele faz sentido, se pensarmos na invenção pela invenção, desvinculada das experiências vividas. Bom, mas preciso ler Borges. Estou me devendo essa. Baci!
ResponderExcluircriar, livre criar é só criar. Ninguém cria o que não sente. Escrever sobre o real sem fantásia é voltarmos ao realismo do século passado. É com sentimento e sensibilidade que notamos que o mundo está mudando e não percebem onde e como. Se assim não fosse não existiria Kafka,expressionismo alemão e o surrealismo.
ResponderExcluir