terça-feira, 14 de julho de 2009

O Leitor e a Banalidade do Mal

Kate Winslet ganhou o Oscar de melhor atriz pelo filme " O Leitor" dirigido por Stephen Daldry, o mesmo de "As Horas". A escolha para o papel de Anna, personagem central , era originalmente de Nicole Kidman que trabalhou com Daldry no filme "As Horas" na qual vive a escritora Virginia Woolf. Se foi justo ou injusto não vale aqui discutir, o prêmio foi dado e acabou. O que realmente vale a pena discutir é a personagem Anna. Ela, Anna, é julgada a certa altura do filme por ter sido guarda de um campo de concentração e nada ter feito que pudesse salvar ou amenizar o sofrimento das detentas. Chamo atenção para o diálogo do julgamento em que responde pelas suas atitudes. É convicta de que fez tudo com o maior rigor profissional. Isso nos remete aos textos Hannah Arendt nos quais ela cria o termo "banalização do mal". Esse texto nasce, quando Arendt acompanha o julgamento de Adolfo Eichmann em Jerusalém em 1961, ele, um dos criminosos de guerra mais procurado pelo Estado de Israel. Eichmann vivia na Argentina e foi habilmente sequestrado pelos israelenses, interferindo assim na soberania da Argentina. Esse tipo de ação passa a ser uma prática toda vez que o Estado de Israel se sente ameaçado. Vários filmes já mostraram essa ação militar. Aquilo foi uma vingança. Um julgamento para garantir dignidade e respeito deveria ter sido realizado em uma corte internacional. Perdemos chance de estudar a origem da "banalidade do mal"
O que Arendt chama atenção nos seus escritos depois transformado em livro "Eichmann em Jeruzalém" e cunha a expressão "banalidade do mal" à maneira como Eichmann respondeu ao interrogatório assim como personagem Anna. Arendt fundamenta a "banalização do mal" na descrição que faz do julgamento. Ela apresenta uma nova forma de vê-lo. Eichman era oficial da Alemanha nazista membro da SS (Schutstaffel), responsável pela chamada lógica do extermínio, ele organiza o transporte do judeus para diferentes campos de concentração. Arendt argumenta que Eichmann não pode ser visto como um pobre coitado que apenas seguia ordens, mas como um homem que fazia parte de um sistema e que omitiu-se à capacidade de julgar. E conclui que o homem abre mão de seu julgamento não por ignorância, mas por interesse : Anna queria melhorar de vida. Arendt cobra essa omissão da comunidade mundial e a judaica. O que mais assustou Arendt foi a superficialidade da f igura de Eichman - que o afastou dos grandes vilões e tornou dificil ver nele um grande monstro capaz de cometer atos bárbaros.
O mal não é banal, e sim, banalizado na sociedade contemporânea . Veja ao que foram submetidos os detentos de Guantanamo , só por diversão; a situação que o Estado de Israel impõe aos palestinos; , no Brasil, a temporada de queima de índios e mendigos ou nos trotes universitários. Podemos perceber também quando os endinheirados estão dispostos gastar fortunas à noite só para se exibir e, por conseqüência, humilhar outros tantos que perderam emprego em nome da crise. É isso que o filme nos faz pensar, quando aponta para a banalização do mal que se avoluma e que compromete a sensibilidade do ser humano. E é esse o papel da arte, provocar alguma reflexão.



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