segunda-feira, 31 de agosto de 2009

A TETA ASSUSTADA
 
Uma revista semanal brasileira que seria a única a entrevistar a Deus quando a imprensa for noticiar o fim do mundo desqualificou o filme peruano a Teta Assustada da diretora Cláudia Llosa. É legitimo não gostar do filme e apontar suas falhas mas falta aí um gesto de compreensão. Teta assustada foge aos filmes que tradicionalmente assistimos vindos de Hollywood com começo, meio e fim e que de alguma maneira sabemos o final. Teta Assustada conta a história de Fausta que tenta enterrar a mãe antes do casamento do primo. Um defunto em casa durante a cerimonia não fica bem. O filme é a luta de Fausta para enterrar a mãe e lidar com seus conflitos. A mãe de Fausta quando grávida dela foi violentada e segundo as crendices peruanas o leite materno transmite esse horror vivido pela mãe durante a amamentação, é a Teta Assustada a que se refere o título do filme. Se essa crendice existe ou foi invenção da diretora não importa é isso que vai nortear o filme. Para não viver o mesmo momento de aflição Fausta carrega em sua vagina um tubérculo, provavelmente uma batata e que de tempos em tempos tem de cortar as ramas que dela nascem. Assim Fausta se sente segura. É um filme que se remete ao realismo fantástico que só podia nascer na América pelas suas crendices fantásticas e tão bem aproveitadas por Garcia Marques e Murillo Rubião. Afinal não é a América o paraíso perdido onde tudo acontece, onde existe o Eldorado e a fonte da juventude, não é aqui que existe o boi voador, e que não existe pecado abaixo do equador e é também abaixo do equador que o vinho azeda. É lidar com a miséria humana com muita fantasia. O filme mostra o triste dia a dia daquela comunidade pobre da periferia de Lima e como esse realismo fantástico ajuda a enfrentar tudo isso. No meio daquela pobreza nasce uma piscina escavada no chão que é o deleite da família. Fausta improvisa uma espécie de parlenda, não uma canção, que aprendeu com a mãe onde canta suas preocupações em lingua nativa Quichua. Fausta tentar despachar o corpo da mãe em um ônibus comum mas não consegue e vai trabalhar em casa de uma "bem de vida" para ganhar o suficiente para enterrar a mãe. A dona da casa onde Fausta trabalha é pianista e transforma uma de suas parlendas em música que faz sucesso em um recital sem nada dar a Fausta. E não é isso que a indústria cultural faz com a cultura nativa. Supor que Teta Assustada ganhou o Urso de Ouro no Festival de Berlim deste ano e de melhor atriz para Magaly Solier no festival de Gramado também deste ano por ser um universo exótico é muito pouco para entender o filme.

terça-feira, 4 de agosto de 2009

Tempos de Paz quando texto é mais texto

Tempos de Paz que abriu o Cinema Judaico e que logo entrará em cartaz em S. Paulo é um filme que merece ser visto. Um drama cuja força está no texto. E é fácil entender porque. O texto original, Novas Diretrizes para Tempos de Paz, nasceu como teatro quando seu autor Bosco Brasil participa do Projeto de Dramaturgia do Teatro Ágora em novembro de 2001. Era um momento de experimentar linguagens e o texto experimentou emoções e conflitos. O texto é curto de apenas uma hora. Tudo se passa em 18 abril de 1945 no Rio de Janeiro quando o polonês Clausewitz desembarga fugindo da europa em guerra ao lado de outros que também fugiam. O Brasil era o local escolhido por Clausewitz por que sua lingua, o português do Brasil é sonora, cheia de balanço e portanto bonita. Um povo que fale essa lingua tem de ser um povo especial com o qual queria contribuir com seus braços como agricultor. Nesse dia o Brasil era um caos. Os aliados tinham vencido a guerra mas o armistício ainda não havia sido assinado. Com a derrota do nazifascismo Getulio Vargas anistia os presos políticos e ninguém da polícia politica sabe como agir. Foram anos caçando e torturando os opositores do regime que ao solta-los a burocracia repressiva está perplexa a espera de novas diretrizes para tempos de paz. Ao passar pela alfândega e demonstrando seu entusiasmo, esperança com a terra escolhida e exibindo seu português auto didata Clausewitz chama atenção da polícia portuária e o levam o entusiasmado polonês ao comissário do porto Segismundo. E a partir daí é um duelo de diálogos e emoções pouco visto no cinema que sempre careceu de bons diálogos. Frente a frente os dois personagens buscam construir sua identidade em uma nova situação. Segismundo um torturador que por sua ocupação se vê sozinho num novo mundo de liberdade onde ele não tem lugar e o pouco que resta de autoritarismo exerce naquele pobre Clausewitz. Este desacreditado com o velho mundo vem ao novo construir sua nova vida e identidade. Do velho mundo ele não quer nada e por isso troca de profissão, deixa de ator para ser agricultor. O Brasil precisa de braços para a agricultura repete Clausewitz várias vezes diante de Segismundo. O Filme é um adereço, uma moldura para que Toni Ramos (Segismundo) e Dan Stulbach (Clausewitz) defendam seus personagens. Um Tour de Force, uma queda de braço de interpretação. Os dois atuam juntos desde 2002 quando estrearam na Casa de Cultura Laura Alvim e percorreram o Brasil com o espetáculo. Dan está há mais tempo. Foi ele quem em novembro 2002 estreou no Ágora e no papel de Segismundo teve primeiro Jairo Mattos e depois Paschoal da Conceição. Só no ano seguinte é o texto volta a ser montado quando Toni Ramos busca um novo texto para montar e encontra Dan Stulbach e Novas Diretrizes em Tempos de Paz. Com o sucesso do espetáculo no teatro estimula Daniel Filho a transforma-lo em filme. Com câmera mais próxima dos atores do que os olhos de uma platéia de teatro pode-se perceber que depois de tantas apresentações Toni e Dan refinaram seus personagens onde qualquer gesto ou expressão facial pertencem aos personagens e não aos atores. O filme peca com o personagem do médico feito por Daniel Filho, diretor do filme. Sua presença quebra a tensão criada pelos personagens centrais, sua presença não acrescenta nada do que foi dito pelos personagens. Fica melodramático. O impasse dos dois personagens só se resolve quando Clausewitz declama o texto “ A Vida é um Sonho” de Calderon de La Barca para Segismundo que nunca tinha ido ao teatro. E nesse momento teatro redime os dois personagens e é a prova de amor ao teatro do autor Bosco Brasil


segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Motown, 50 anos de musica negra americana

A gravadora Motown está completando 50 anos este ano e muitas das coisas que se escreveu foi a sua importância para música pop quando na verdade é música negra da maior qualidade. Penso aqui que a designação de pop é ser popular ou seja de agradar ao maior número de pessoas. Na verdade e música pop é reducionista para usar uma expressão frankfurtiniana. Os saltos qualitativos de criatividade da música pop é o sequestro que faz da criatividade de outras músicas como jazz por exemplo. A Motown por definição é música negra. Quando se pensa que um sucesso da Motown é pop é mais no sentido de dar qualidade a música pop e não situa-la na sua esfera de origem, a música negra americana. A Motown surge no final dos anos 50 quando os Estados Unidos está com sua indústria cultural a todo vapor. A música negra passara por duas experiências dramáticas. A primeira foi domesticar o jazz através das bandas brancas o que obrigou os músicos de jazz negro a procurarem seu espaço e nasce o Bebop. O rock nada mais é do que tentativa da classe média americana de tocar o Rithm & Blues. Assim como o jazz tinha uma expressão muito forte e foi domesticado para uso e diversão da classe média acontece o mesmo com rock. Nasce musicas mais comportadas como Hully Gully e o Twist. O rock com sua essência negra vai ressurgir nos anos 60 com o rock inglês que bebe mais da fonte do blues.

Assim podemos resumir a história da Motown:

Motown Records, também conhecida como Tamla-Motown, é uma gravadora americana de discos fundada em 14 de dezembro de 1959 por Berry Gordy Jr. na cidade de Detroit, estado americano de Michigan conhecida como "Motor Town", devido às montadoras de automóveis ali instaladas. O nome da gravadora é uma redução de "Motor Town". Nos anos 60 foi a mais bem sucedida na criação daquilo que se tornou conhecido como O Som da Motown, um estilo de "soul" bem característico, com o uso de instrumentos como pandeiros, baterias e instrumentos do "rhythm and blues" além de um estilo de 'canto-e-resposta' (com a repetição, por parte do coral, de frases inteiras ou palavras de alguns versos) originário da música gospel. O "som da Motown" também é marcado pelo uso de orquestração e instrumentos de sopro, por harmonias bem arranjadas e outros refinamentos de produção da música , e é considerado precursor da Era Disco dos anos 70. A música e a dança sempre foram característica da música negra na america latina e era natural que a dance music fosse conseguencia.
Apesar de terem existido músicos negros norte-americanos de grande sucesso antes dos anos 60, incluindo Louis Armstrong, Ella Fitzgerald, Nat King Cole, e Chuck Berry, a Motown foi a mais importante lançadora de artistas negros desde seu surgimento até o surgimento do chamado "hip hop". Foi também a primeira a lançar músicas que deixavam de lado o puro e simples lirismo e mergulhavam também em temas socio-políticos.
Foi também a criadora dos chamados 'girl groups', como Martha & the Vandellas e The Supremes. Seus artistas eram vestidos, penteados e coreografados de modo impecável, para exibições ao vivo nas tevês e shows. Deveriam, para a gravadora, funcionar como uma espécie de "embaixadores" para outros artistas negros norte-americanos em busca de sucesso.” Essas coreografias se moldavam de alguma forma ao contexto de produção cultural. Tinham de ter balanço e criatividade sem gestos agressivos que tanto assusturam a classe média americana ao ver seus filhos rebolando e condenados a danação do inferno.

A Motown não é a primeira gravadora negra, já existiu a gravadora Okey que gravou por exemplo os primeiros trabalhos do maestro e bandleader Duke Ellington. O que faz com que a Motown tenha um som diferenciado são os músicos que pertenciam ao seu cast. Eles se autodenominaram os “Funk Brothers” e se tornaram a maior máquina de criar sucessos da história da música popular. Essa é a história deles. Em 1959, Berry Gordy reuniu os melhores músicos da cena do jazz e blues para iniciar a edição de canções para sua nova gravadora. Durante um período de mais de catorze anos, eles foram seus fundadores, com “My Girl”, “Ain’t No Mountain High Enough”, “What’s Going On”, “I’ve Heard it Through the Grapevine” e todos os sucessos da época da Motown em Detroit. Ao final da sua fenomenal jornada, esse inusitado grupo de músicos compôs a maioria dos primeiros colocados das paradas musicais, superando os Beatles, Beach Boys, Rolling Stones e Elvis Presley juntos – o que os torna a maior máquina de produzir sucessos da história da música popular. Eles se autodenominaram os “Funk Brothers”. Influenciaram de tal maneira que o sucesso "Please, mrs Postman" de 1963 com as Marvelletes voltam a fazer sucesso com os Beatles e com os Carpenters. A sede da Motown era a casa onde o negros podiam se reunir e produzir música. E a industria cultural americana teve de absorver por que alí estava uma boa mercadoria a ser consumida e sua produção artística transcendia ao mercado.