segunda-feira, 20 de julho de 2009

O prazer de descobrir Borges


24 de agosto próximo Jorge Luis Borges se vivo estivesse completaria 110 anos. Um autor mitificado que parece estar ainda vivo completando 110 anos, assim como convém a qualquer entidade. Livros sobre ele e dele começam a ser disponibilizados nas livrarias. Ornarão estantes sem nunca serem lidos. São textos considerados de difícil compreensão com os quais me deparei saindo da adolescência. Eram dois livros a serem devorados e que mereciam um esforço pessoal, Aleph de Borges e Grande Sertão Veredas de Guimarães Rosa. Ataquei Borges como quem se prepara para o vestibular. Em cada linha se buscava um sentido, na vírgula se buscava uma intenção. O esforço foi em vão. O livro se tornava chato e nada fazia sentido. Abandonado por um tempo na estante o livro me seguia e me inquiria com olhos toda vez que outro livro que não ele era escolhido. Um dia descobri a beleza de ler Borges. Por questões de estudo já na universidade fui obrigado a ler “A Palavra e as Coisas” de Michel Foucault e cujo prefácio dizia que o livro nasceu de um texto do Borges que cria “uma certa enciclopédia chinesa” onde vem escrito que os animais se dividiam em a) pertencentes ao imperador, b) embalsamados, c) desenhados com pincel muito fino de pêlo de camelo, e assim seguia a tal enciclopédia com classificações difíceis de acreditar dentro a nossa racionalidade. Borges é isso, um fraudador que mistura ficção e realidade. É capaz de criar o conto “Almotásin”, de 1935 onde escreve uma resenha de um livro indiano que estava sendo reeditado. Esse livro é fruto da imaginação do Borges. O livro não existe o editor e a editora citados são reais. Há informações que gente menos desavisada encomendou o livro. Esse é Borges que mistura o real e a ficção. Tudo é virtual, nada existe por que o real existe. Para que Borges pudesse ser consumido pelos leitores americanos foi preciso editar sua biografia. Essa biografia saiu no New Yorker em 1970. Assim como seu escritos uma mistura de realidade e ficção. É a realidade reinventada na qual o que vale é a história. Para Borges as situações criadas, as surpresas, as fantasias é o que vale ser escrito. A fantasia é tudo. Borges elege como grandes livros“As 1000 e uma Noites” e “Dom Quixote”, ele próprio um sonhador de armadura brilhante e enfrentar moinhos. Borges inventa o Aleph, A Biblioteca de Babel. É o livre criar só criar. Como se dizia nos anos 70 é um desbunde. Toda forma de criar vale a pena. Borges tem o domínio das linguas clássicas e moderna o que confere uma erudição e um estranhamento no primeiro momento. Borges faz parte da geração do início do século passado que rompe com o racionalismo, assim como o dadaismo, para criar e assim persiste até sua morte em junho de 1986 sem se deixar subjugar pela indústria cultural. Ler Borges e como se tomássemos aquele absinto do final do século 19 para nos tirar da realidade e voar nas asas de imaginação.

terça-feira, 14 de julho de 2009

Michael Jackson e o mito do herói trágico

Muito se escreveu sobre Michael Jackson desde a sua morte. Falaram de suas virtudes e exploraram suas fraquezas. A biografia de Michael Jackson apresentada insistentemente nos sites e tvs remete ao mito do herói trágico. O herói é aquele ser humano comum que num esforço próprio pratica um feito que beneficia a humanidade. O herói trágico é aquele herói que paga caro pelo seu feito e é abandonado pelos homens. O grande exemplo desse feito é Prometeu que rouba o fogo dos deuses e entrega aos homens e como castigo foi amarrado nas montanhas do Cáucaso onde diariamente uma águia vinha comer seu fígado que se regenerava durante a noite. Outro é Sísifo que mostra aos homens que através da inteligência pode-se enganar os deuses. Como castigo teria de empurrar uma pedra de uma montanha até o topo; a pedra então rolaria para baixo e novamente teria que começar tudo de novo. Michael Jackson foi esse ser humano que trouxe alegria e renovou a música negra e não a música pop. Uma vez completado seu designo de herói chegou a hora dos deuses imporem um castigo a se perpetuar. Sua doença e devassa sobre sua vida privada. Daqui pra frente muitas histórias a respeito de sua vida privada virão a tona e com certeza perversas. O que faz com que um ser comum se torne um herói. Que circunstancias contribuem para que se torne um herói. Michael Jackson está inserido na tradição cultural do negro no showbiz americano. Um dos exemplos foi Sammy Davis Jr. que fazia parte do grupo de Frank Sinatra conhecido por Rat Pack. Sammy nos show s e filmes e era o motivo das brincadeiras de gosto duvidoso. May Britt, atriz sueca que casou com Sammy Davis criou um mal estar no Rat Pack ao chamar atenção ao papel que Sammy desempenhava naquele grupo. Assim como Michael Jackson Sammy Davis foi um menino prodígio. Sua qualidade era sapatear . Nas primeiras de décadas dos século XX era possível ver negros sapateando e tocando nas ruas das grandes cidades. A música e a dança de rua estavam definitivamente incorporados na cultura do negro americano. Em documentários é possível ver Sammy Davis garoto sapateando nas ruas. Quando garoto foi tão talentoso que logo o showbiz incorporou. Michael Jackson sintetizou essa cultura. Utilizou o que de melhor a gravadora Motown tinha de ritmo negro aboliu as danças comportadas tão comum ao elenco da gravadora como Temptation e as Suprems e criou uma dança mais frenética. Foi um sucesso tão grande que se tornou popular daí o equivoco de chama-lo de pop. É música negra da maior qualidade criada pelos músicos negros da Motown e arranjos de outro negro de muito talento o arranjador e maestro, Quincy Jones. Talentoso e criativo Michael Jackson se expôs ao mundo, além da dança e da música deu sentido e valorizou os clips chamando diretores de Hollywood para dirigir os seus. No início do século XX a dança negra renova o conceito da dança influenciando companhias de dança e dançarinos. Graças a essa influencia foi possível nascer um Gene Kelly nos filmes musicais e grupos de dança moderna como por exemplo Twyla Tharp. O showbiz se aproveita dessa criatividade. Michael Jackson recria a dança e a música negra americana. O herói já atendeu aos homens e agora é hora do martírio.

Balzac e a história da vida privada


Os livros “Tratados da Vida Moderna” e “Eugénie Grandet” de Honoré de Balzac lançado pela editora Estação Liberdade pode ser considerado como história da vida privada da França do século 19. Arguto observador da vida francesa usa da ironia para descreve-la. Com a consolidação do capitalismo a burguesia herda da aristocracia decadente as atitudes que são fáceis identificar na nossa classe média. Atitudes como esnobismo, futilidades, vaidade, demonstração de poder e de dinheiro já estão lá observadas ironicamente por Balzac e isso faz com que seja considerado o primeiro autor moderno.
“ Eugéne Grandet” é a personagem que amamos e torcemos por ela. Ama seu primo Charles sem pedir nada em troca e sofre em silencio por não ser correspondida. O Sr Grandet é um comerciante bem sucedido, considerado o mais sovina da literatura mundial. A relação de pai e filha transforma a vida familiar numa melancolia que é na verdade um retrato da desolação e decadência vida francesa desse século. É difícil ao ler não apaixonar pelos personagens e não se comover com eles. Se a tarefa que Balzac se propôs de escrever de dissecar a vida social francesa ficasse só nesse livro teria valido a pena.
“Tratados da vida Moderna” é uma reunião de textos onde a observação sobre os maneirismo da buguesia francesa é descrita com fina ironia. Estão lá observações sobre gravata, sobre o glutão explicando que a sofisticada educação e culinária francesa foram importada da Itália . Ao ler cada um desses tratados é impossivel não lembrarmos de algum conhecido.

Eugénie Grandet
284 páginas R$ 75
de Honoré de Balzac apresentação de Pierre Citron e tradução de Marina Appenzeller. Estação Liberdade (r. Dona Elisa,116 CEP 0115-030, São Paulo,SP,tel.0/xx/11/3825-4239)
Tratados da Vida Moderna
240 páginas R$ 37
de Honoré de Balzac tradução,notas e prefácio de Leila de Aguiar Costa Estação Liberdade (r. Dona Elisa,116 CEP 0115-030, São Paulo,SP,tel.0/xx/11/3825-4239)

*Balzac pulicado no Guia mensal da Fôlha de S. Paulo

A Nova Toupeira


Com a verdade de que o mercado se auto regula destruídas pela realidade da crise financeira do ano passado convém sempre ver o mundo com outros olhos. E é esse novo jeito ver analisar o mundo que o livro “A Nova Toupeira” de Emir Sader apresenta. Seu universo de análise é a América Latina. Para entender o que este século reserva ao continente americano Emir traça um histórico sobre os principais movimentos de libertação do continente e busca entender na história mais recente de como países deixaram a ditadura para governos de esquerda pela via democrática e as dificuldades de realizar um governo de justiça social e nacionalista.

A Nova Toupeira
Boitempo Editorial (r.Euclies de Andrade,27 CEP 05030-030, São Paulo,SP,tel.0/xx/11/3875-7285)

*Publicado no Guia mensal da Folha de Fôlha de São Paulo

No Brasil tudo muda para ficar na mesma

A televisão raramente consegue propor um debate sério mas quando consegue instigar cumpriu seu papel de informar e entreter. Recentemente vi o filme Muda Brasil de Oswaldo Caldeira. É um documentário que acompanha a trajetória da campanha da candidatura de Tancredo Neves a presidência da República . Todos depositavam a esperança que com isso a ditadura terminaria e com o advento da democracia uma nova constituição e os males do Brasil seriam sanados.
Em outro momento assisti ao Roda Viva Com Carlos Guilherme Mota em que certa altura diz que as oligarquias sempre fizeram acordo para se manter no poder. Ele cita a oligarquia fluminense que fez acordo com Dom Pedro Primeiro para independência do Brasil. Se é verdade que a história se repete em tom de farsa ficou claro com o filme Muda Brasil. Um filme entusiasmado com a campanha do Tancredo. A época os lances politicos eram surpreendiam dia a dia o que mostrava uma certa agonia da ditadura. Tancredo Neves governador mineiro apoiava o outro mineiro, Aureliano Chaves, membro do PFL (ex arena) um dos pilares da ditadura. O governo apostava no gaucho Mário Andreazza, outro procer da ditadura. Quem veio embaralhar o meio do campo foi uma figura da ditadura e que sempre usou de meios escusos, Paulo Maluf. Acusado de comprar o votos dos convencionais do PDS (ex arena) tirou a chance dos militares de terem o controle de tudo. É bom lembrar que estavam perdendo esse controle e a ditadura dava sinais de ir a pique. Eis que o acordo entre a oligarquia começa a ser feita. O PFL (hoje Democratas) e o PDS (ex Arena)se unem ao PMDB para resolver a situação a favor deles. Uma grande armação começa a ser feita. A oligarquia nordestina se junta ao Muda Brasil. Estão todos lá os 8 governadores. Os mais entusiastas eram o governador Hugo Naqpoleão do Piauí, Luiz Gonzaga Motta, do Ceará, governador Roberto Magalhães, de Pernambuco. Se dizia na época que o nordeste só servia para encher o senado de biônicos. Senadores não eleitos que estavam a serviço da ditadura Todos as vésperas estavam com a ditadura. Surfando na esperança do povo deixaram de lado os representantes da sociedade civil como trabalhadores rurais sem terra, sindicatos e outras entidades. Elas só apareceriam nos palanques para dar legitimidade. Alguns tradicionais políticos conservadores que fizeram escola na UDN, um partido conspirador por natureza, estavam lá. Estão todos aí no poder como o falecido ACM, os Bornhausen e Sarney e vão fazendo escola para nova geração de políticos. Desde a implantação da democracia eles estão no poder. Observe de Sarney pra cá estão presentes. Ninguém consegue governar sem o apoio deles seja FHC ou o Lula e é por isso que entre outras coisas a reforma agrária está como está e o mensalão é generalizado.

Dona Ivone Lara, Uma Biografia

Tenho discutido como avaliar uma produção cultural que não seja violentada pela indústria cultural e agora chegou um momento de deixar isso mais claro. Saiu a biografia da Dona Ivone Lara escrita pela antropóloga Mila Burns. Uma biografia honesta dá elementos de como se constroi uma produção artística e quais as circunstancias que contribuiram para essa produção. Escrito por uma antropóloga a observação sobre a produção tem outros elementos desprezados tradicionalmente em biografias e que ajuda a entender como o meio em que o biografado vive influenciou na sua criação. O livro é cheio de surpresas. Uma delas é que Dona Ivone Lara não se encaixa em nenhum dos tipos mais conhecidos desse universo . Não é "tia", não é passista, tampouco é musa inspiradora. Ela simplesmente compõe e canta como fazem todos os homens. É isso que confere a Dona Ivone Lara sua genialidade. Imagine mulher negra, pobre que faz samba e samba de altíssima qualidade. Suas composições eram foram presentados a roda de samba no Império Serrano pelo seu primo Fuleiro como sendo dele. Quando foi revelado que a autora desses sambas era a Dona Ivone foi imediatamente integrada a ala de compositores da escola. Embora seu pai fosse musico e sua casa tinha musica toda hora sua qualidade musical extrapola a esse genêro de musica. Essa outra qualidade musical vem de quando orfã aos 12 anos aprendeu musica com Dona Lucilia, mulher do maestro Villa- Lobos. Ela foi considerada a melhor voz da escola Orsina da Fonseca onde ficou internada. Outra professora que foi importante na sua formação musical foi Zaíra de Oliveira, cantora e mulher do compositor Donga. Alternando entre a musica de concerto e musica popular Dona Ivone Lara foi construindo seu gosto musical. Lembrando que quando pequena ouvia sambas e choros em sua casa deu a ela uma capacidade de desenvolver ritmos. Ela cria ritmos em sua cabeça e para as letras ela convida parceiros. Como ela mesmo diz "não gosto de letra, não. Deixo para os meus parceiros". Dona Ivone Lara só teve chance de aparecer e mostrar sua genialidade num momento muito específico nos 60 quando o bonito era a diferença. Há outras considerações a serem feitas mas isso vai ficar para uma outra vez.

50 anos de Kind of Blues de Miles Davis

A imprensa tem noticiado e festejado os 50 anos da gravação do Kind Of Blues mas acho que ficou faltando algumas informações que conferem a gravação sua importância. Miles lembra aquele personagem do conto do “O Perseguidor” do argentino e crítico de jazz Julio Cortaza. Esse personagem é inspirado em Charlie Parker, saxofonista de jazz que virou filme pelas mãos de Clint Eastwood. O personagem busca materializar o som que tem em sua cabeça, perseguia esse som. Miles Davis não era diferente. Era o som de Miles Davis. Isso fica claro quando ao entrar no estúdio, no primeiro ou segundo dia de março de 1959 e mostra um esboço do que todos deveriam tocar. O disco foi gravado em dois dias apenas. Miles soube escolher seus músicos. Estavam lá no estúdio esperando por ele o dois grandes saxofonistas Cannobal Adderley e John Coltrane, os pianistas Wynton Kelly e Bill Evans, o baixista Paul Chambers e o baterista Jimmy Cobb. Miles pensava em Joe Zawinul como pianista mas não deu certo e só iriam tocar juntos mais tarde. Kind Of Blues começou de uma forma modal que Miles experimentara em Milestones. Em sua biografia Miles diz que não precisou de ensaio gravaram direto. A música estava materializada, tinha corpo, estava ali nas fitas gravadas. A participação dos músicos foi tão importante e contribuiu de tal maneira com a característica de cada um que há quem diga que Bill Evans, o pianista, era co autor da musica título do disco. A partir do esboço os músicos ficaram livres para criar e Bill Evan se inspirou em Ravel e Rachmaninoff para fazer sua parte. Miles se surpreende com a repercussão na época. O disco é considerado maravilhoso pelo público e pelos críticos mesmo não conseguindo colocar tudo o que tinha na cabeça pra fora. Esse tipo de criação Miles vai repetir sempre e o segundo grande momento acontece na gravação do antológico Bitches Brew.








O Leitor e a Banalidade do Mal

Kate Winslet ganhou o Oscar de melhor atriz pelo filme " O Leitor" dirigido por Stephen Daldry, o mesmo de "As Horas". A escolha para o papel de Anna, personagem central , era originalmente de Nicole Kidman que trabalhou com Daldry no filme "As Horas" na qual vive a escritora Virginia Woolf. Se foi justo ou injusto não vale aqui discutir, o prêmio foi dado e acabou. O que realmente vale a pena discutir é a personagem Anna. Ela, Anna, é julgada a certa altura do filme por ter sido guarda de um campo de concentração e nada ter feito que pudesse salvar ou amenizar o sofrimento das detentas. Chamo atenção para o diálogo do julgamento em que responde pelas suas atitudes. É convicta de que fez tudo com o maior rigor profissional. Isso nos remete aos textos Hannah Arendt nos quais ela cria o termo "banalização do mal". Esse texto nasce, quando Arendt acompanha o julgamento de Adolfo Eichmann em Jerusalém em 1961, ele, um dos criminosos de guerra mais procurado pelo Estado de Israel. Eichmann vivia na Argentina e foi habilmente sequestrado pelos israelenses, interferindo assim na soberania da Argentina. Esse tipo de ação passa a ser uma prática toda vez que o Estado de Israel se sente ameaçado. Vários filmes já mostraram essa ação militar. Aquilo foi uma vingança. Um julgamento para garantir dignidade e respeito deveria ter sido realizado em uma corte internacional. Perdemos chance de estudar a origem da "banalidade do mal"
O que Arendt chama atenção nos seus escritos depois transformado em livro "Eichmann em Jeruzalém" e cunha a expressão "banalidade do mal" à maneira como Eichmann respondeu ao interrogatório assim como personagem Anna. Arendt fundamenta a "banalização do mal" na descrição que faz do julgamento. Ela apresenta uma nova forma de vê-lo. Eichman era oficial da Alemanha nazista membro da SS (Schutstaffel), responsável pela chamada lógica do extermínio, ele organiza o transporte do judeus para diferentes campos de concentração. Arendt argumenta que Eichmann não pode ser visto como um pobre coitado que apenas seguia ordens, mas como um homem que fazia parte de um sistema e que omitiu-se à capacidade de julgar. E conclui que o homem abre mão de seu julgamento não por ignorância, mas por interesse : Anna queria melhorar de vida. Arendt cobra essa omissão da comunidade mundial e a judaica. O que mais assustou Arendt foi a superficialidade da f igura de Eichman - que o afastou dos grandes vilões e tornou dificil ver nele um grande monstro capaz de cometer atos bárbaros.
O mal não é banal, e sim, banalizado na sociedade contemporânea . Veja ao que foram submetidos os detentos de Guantanamo , só por diversão; a situação que o Estado de Israel impõe aos palestinos; , no Brasil, a temporada de queima de índios e mendigos ou nos trotes universitários. Podemos perceber também quando os endinheirados estão dispostos gastar fortunas à noite só para se exibir e, por conseqüência, humilhar outros tantos que perderam emprego em nome da crise. É isso que o filme nos faz pensar, quando aponta para a banalização do mal que se avoluma e que compromete a sensibilidade do ser humano. E é esse o papel da arte, provocar alguma reflexão.



O Jazz de Dianne Schuur

Dianne Schuur passou por São Paulo, onde fez duas apresentações. Com seu trio, tocou no Bourbon Street e, com a Jazz Sinfônica, no Auditório do Ibirapuera. Emocionada, Dianne entrou no palco sob intensos aplausos. O motivo de sua emoção foi revelado durante a performance da cantora, que dedicou a primeira música a Barack Obama. Ela revelou, momentos antes de pisar no palco, ao ser entrevistada por uma emissora de televisão, que nada a deixaria mais feliz do que cantar para o novo presidente dos Estados Unidos (ela já se apresentou duas vezes na Casa Branca). Disse em tom de desabafo: "O jazz é a grande forma de arte norte-americana. Está na hora de o jazz voltar a Casa Branca".E, nesse tom de emoção, o espetáculo foi se revelando. Com uma voz límpida, tal como um trompete bem tocado, Deedles usou e abusou ao exibir suas habilidades como excelente cantora e pianista, alcançando um raro alcance vocal de três oitavas e meia. Dianne passou do jazz ao blues despojadamente com seus companheiros de banda, com a presença de Reggie Jackson (baterista), Dan Balmer (guitarra) e Scott Steed (baixista), que também assume a direção musical.A emoção foi dividindo o palco com a alegria e o entusiasmo imposto pelo prazer de Dianne e seu trio. A certa altura do show, a cantora apresentou My Favorite Things, uma canção de Richard Rodgers e Oscar Hammerstein para o filme A Noviça Rebelde. Essa música, considerada singela, cantada no filme pela noviça (Julie Andrews) para espantar o medo que os filhos do Capitão Von Trapp têm da tempestade, foi gravada pelo saxofonista John Coltrane, que enxergou nela diversas possibilidades harmônicas de improvisações jazzísticas. Um dos melhores momentos de Coltrane.O jazz tem dessas coisas, de conseguir tanto realçar as qualidades de uma música singela, quanto se envolver com as questões sociais. Se Dianne Schuur se emociona com a vitória de Obama ao abrir o show, Coltrane compôs e gravou em 1963 a canção Alabama, lembrando o assassinato de quatro crianças negras pelo Klu Klux Klan, na cidade de Birmingham. No caso de Dianne, ela vai desfiando músicas conhecidas como Blue Skies, Taking Change a Love e Danny Boy, onde conseguiu atingir uma delicadeza ímpar. Sua voz acompanha os instrumentos, principalmente o baixo.Muito à vontade em seu piano, alternava entre o bom humor de quem fazia uma festa no palco, com momentos de puro envolvimento. A Jazz Sinfônica abriu a apresentação com Saxomania e Suite Duke Ellington, ambos com arranjo de Cyro Pereira, preparando o espírito da platéia. Essa parceria mostrou uma outra Dianne Schuur. De blusa e óculos pretos, cheios de brilho, era de se esperar uma apresentação formal. Nesse momento aparece a influência de Dinah Washington na carreira da cantora, que sempre gravou com orquestra. As cordas e os metais soavam a favor da voz de Dianne. A formalidade se transformava em festa. Cada canção, por mais conhecida que fosse, tinha sempre uma nova melodia. Ela toca Blue Gardenia, que foi sucesso de Dinah Washington, mostrando sua devoção. Cantou clássicos como The Man I Love, Body and Soul, Everytime We Say Goodbye e Unforgettable (essa última parecia que era inédita).Cyndi Lauper também se apresentou na mesma semana que Dianne. Cindy foi cover dela mesma. Seu show foi previsível. Ela cantava o que a platéia queira ouvir. O público foi lá para apreciar o show e ouvir sucessos, cantado do mesmo jeito desde o século passado. Esse é o problema da música pop. Ela é limitada, não rompe e nem se supera musicalmente. É o gosto pelo mesmo, pelo instituído, enquanto o rock e o jazz são mais criativos. E Dianne Schuur é só um dos exemplos. Uma dessas cantoras misteriosas que vão além do entender a música que cantam.

*Publicado no site Guia da Semana.



O mistério do samba são memórias de Oswaldo Cruz

Foto: Gabriel Oliveira

Munido de imagens gravadas de um modo caseiro e também imagens gravadas profissionalmente, o filme conta a história dos sambistas que formam a Velha Guarda da Portela. E o show não foi diferente. Um espetáculo que mostra, assim como no filme, que essa geração está desaparecendo por mais que outros sambistas envelheçam e acabem por ocupar esse lugar. A idéia de dar espaço e voz a essa geração foi de Paulinho da Viola em 1970, onde recupera sambas que nunca haviam sido gravados e que entram no disco Portela, Passado de Glória.Essa missão acabou sendo levada a cabo por Marisa Monte, que grava outros sambas inéditos no disco Tudo Azul. Uma das maneiras de preservar, é gravar imagens dessa gente tão notável e assim se fez o filme. O show apresentado no SESC Pinheiros para lançar o filme foi menos "Velha Guarda" e mais compositores da Portela. Sem a presença de Monarco, que por razões de saúde não pôde estar presente e o falecimento de Jair do Cavaquinho e do Argemiro faltou graça ao show. No palco, Mauro Diniz, Diogo Nogueira, Teresa Cristina e Marisa Monte desfilaram músicas de novos e velhos compositores da escola e a Velha Guarda da Portela ficou no acompanhamento. Dos veteranos, só tiveram destaque aqueles que apareciam no filme exibidos durante o show, Jair do Cavaquinho e Argemiro. Ao ver os dois na tela e ver ao que o grupo ficou reduzido no palco, dá uma tristeza. Aquela geração que fez o samba com alma e muita boêmia está prestes a ser substituída por uma geração que não faz samba com alma, mas faz como negócio, pra ganhar dinheiro. O destaque é para o Paulão Sete Cordas que fez os arranjos do show. É alguém que entende o que essa gente compõe. Todos no palco se esforçaram. Nem todos os sambas cantados estão no filme e nem todos os sambas que aparecem no filme foram cantados no show. Diogo Nogueira, que emplacou o samba enredo da Portela nos dois últimos anos cantou, reverenciou a velha guarda, chamou o público para cantar. Teresa Cristina, mais pastora do que sambista, muito ligada a essa geração relembrou as grandes composições. Marisa Monte, motivo de atrair aquele seleto público, encerrou a apresentação. Aí sim coube a Velha Guarda sambar no palco com passos que pouca gente naquela idade faria. E ao estilo do Paulinho da Viola fica aqui uma reverência deste colunista aos que fizeram a Velha Guarda da Portela, uma instituição: Ventura, Aniceto, Alberto Lonato, Francisco Santana, Antônio Rufino dos Reis, Mijinha, Manacéa, Alvaiade, Alcides Dias Lopes, Armando Santos e Antônio Caetano, Jair do Cavaquinho, Guaracy, Monarco, Casquinha, Cabelinho, Argemiro, Davi do Pandeiro, Casemiro, Serginho Procópio. E as pastoras, cuja importância na historia da escola é fundamental. Quando o samba era apresentado na quadra pela primeira vez seu sucesso dependia delas, as pastoras, para que o samba fosse aceito. Se elas não gostassem, não tinha ninguém que as fizesse cantar e o samba nascia e morria ali mesmo. Áurea Maria, Surica, Doca e Eunice.

* Publicado no site Guia da Semana


O show de Roberto e Caetano para Tom Jobim

Quando anunciado que Roberto Carlos e Caetano Veloso fariam um show juntos para comemorar os 50 anos da Bossa Nova, houve quem perguntasse o que eles teriam em comum. Caetano sempre disse que a Bossa Nova abriu a cabeça da sua geração e assim foi possível surgir a Tropicália. A Bossa Nova enterrou quase de vez o samba canção, o samba de batida tradicional e a voz potente tão ao gosto de Orlando Silva. Abriu a porta para que tudo fosse cantado de outra maneira, de uma maneira moderna como se dizia na época. Roberto Carlos, embora fosse o Rei do Iê iê Iê começou a carreira copiando João Gilberto, entre outros cantores.Perceba que na carreira de Roberto ele é muito mais um bossa novista cantando rock baladas do que propriamente um roqueiro. Fazer rock e cantar rock era para o seu parceiro Erasmo Carlos. A sutileza de sua voz fez com que Luis Carlos Paraná, compositor e dono do Jogral, uma casa noturna da nova geração de compositores daqueles idos anos 60, convidasse Roberto Carlos para defender sua composição Maria, Carnaval e Cinzas no festival da Record. E existe uma relação pessoal entre Caetano e Roberto. Roberto foi visitar Caetano no exílio onde compôs para o amigo Debaixo dos Caracóis de seus Cabelos.O Show em homenagem aos 50 anos da Bossa Nova foi na verdade, uma homenagem a Tom Jobim que junto com Vinicius de Moraes e João Gilberto deram forma ao movimento. O resto é coadjuvante. Não dá para comparar Chega de Saudade com a letra do barquinho vai, o barquinho vem. Ou Insensatez, Ligia e Corcovado com Bolinha de Sabão. Então o show foi Tom Jobim. A cortina abre com o áudio de um show gravado ao vivo nos anos 60 onde Tom, Vinicius e João Gilberto se convidam para cantar o amor. A cortina abre e estão lá Caetano e Roberto cantando Garota de Ipanema. Caetano, com terno cinza, cabelo curto e óculos ao lado de Roberto, com um terno azul e um cabelo duro e reto como se estivesse sido alisado a ferro. Era a primeira apresentação para o público de São Paulo. Estavam nervosos. Uma preocupação desnecessária, já que o público estava ali para gostar do show. Enquanto cantavam Garota de Ipanema e Wave, Caetano dava seus pulinhos desengonçados tão tradicionais em suas apresentações ao passo que Roberto Carlos mantinha sua habitual postura de segurar o pedestal e microfone com as mãos. O dueto é interrompido. Caetano e Roberto chamam atenção para o pianista Daniel Jobim, neto de Tom Jobim que toca e canta Águas de Março. Já no final da música, Caetano entra em clima de molecagem devidamente ensaiado e encerra cantando o refrão. Era a hora da apresentação de Caetano que entra cantando Por toda Minha Vida, Ela é Carioca, Inútil Paisagem, O que Tinha de Ser e "Meditação" acompanhado por uma orquestra de cordas e de músicos sob a regência de Jaques Morelenbaum.As cordas, sempre presentes nos grandes arranjos da Bossa Nova davam um ar nostálgico as canções e certa dramaticidade quando a letra pedia. Ao fundo, Daniela Thomas responsável pelo cenário, ia exibindo imagens do Rio de Janeiro, palmeiras na praia e um pombo voando. Ao lado esquerdo, uma figura masculina que se supõe ser de Tom Jobim. As imagens exibidas não eram bem definidas.Caetano sai do palco e a orquestra toca uma música pouco conhecida de Tom, Surfboard.Roberto Carlos entra cantando Insensatez sob regência do maestro Eduardo Lages que o acompanha há muito tempo. Roberto justifica que vai cantar em espanhol por que gravou assim em um dos seus discos para língua hispânica. Acentuando ainda mais o clima de fossa canta Por Causa de você uma parceria de Tom Jobim e Dolores Duran. Insensatez em espanhol mais Por Causa de Você era um momento de "dor de cotovelo" e de amor desesperançado faltando só cantar Namoradinha de um amigo Meu. Fica a impressão que Caetano e Roberto escolheram músicas mais ao seu feitio de cantar.Caetano se esmerava no canto e Roberto na emoção que a música continha. A direção do show utiliza um truque para trazer Roberto Carlos de volta a Bossa Nova. Exibe um trecho de programa exibido na TV Globo onde Tom Jobim ao piano começa a cantar Ligia e Roberto acompanha. É a grande deixa para Roberto Carlos cantar a mesma canção sem causar traumas. Roberto vai de Corcovado, "Samba do Avião e Eu sei que vou te Amar e recita o Soneto da Fidelidade. Toda apresentação também acompanhada por cordas dá um outro tipo de dramaticidade bem ao gosto de Roberto. Os dois voltam a cantar juntos e o público aplaude. Como estão em dupla era inevitável que cantassem Teresa da Praia que fez sucesso nas vozes de Dick Farney e Lúcio Alves num momento pré - bossa nova. E seguem com Chega de Saudade, A Felicidade e Se Todos Fossem Iguais a você. O ritual do show foi cumprido.O público pediu bis e os dois voltaram. Foi um espetáculo onde Roberto e Caetano trocaram energia para uma platéia fria.O bis saiu, o público aplaudiu, os dois se divertiram no palco numa rasgada troca de elogios e não mereciam um público tão frio.

*Publicado no site do Guia da Semana


As Mulheres do Jazz

Esperanza Spalding, Carla Bley e Stacey Kent. Três mulheres jazzistas, três gerações e três maneiras diferentes de fazer jazz. As três, Esperanza Spalding, Stacey Kent e Carla Bley em uma só noite mostraram como o jazz pode ter várias configurações sem perder seu vigor e a sua criatividade. Eric Hobsbawn, historiador inglês que escreveu a história do jazz nos anos 50 afirma que uma das características do jazz é o prazer de se tocar junto e foi o que se viu na segunda noite do Tim Festival no auditório Ibirapuera. Intencionalmente ou não a ordem das apresentações seguiu das jazzistas mais nova para mais velha. A primeira a se apresentar foi Esperanza Spalding considerada uma revelação pelos apreciadores de jazz. Com aparência de uma colegial escolheu desde cedo tocar um instrumento dificil para mãos delicadas de uma menina, o baixo acústico. Vendo apresentações de baixistas veteranos sempre vem a imagem que um bom baixista tem que ter mãos de marceneiro para tirar das cordas grossas do instrumento suas notas. Esperanza provou que essa imagem não sobrevive depois de assistir sua apresentação. A presença da Esperanza no palco mostra a bôa relação entre a música latina e o jazz . Acompanhado por um quarteto Leonardo Genovese no piano, Ricardo Vogt na guitarra, Pedro Ito na bateria e participação especial do violonista e guitarrista Chico Pinheiro que tocavam juntos pela primeira vez Esperanza alternava entre baixo acústico e elétrico. Apaixonada pela música brasileira apresentou uma das músicas mais dificeis e bonitas do Milton Nascimento, Ponta de Areia. E justificou a escolha da música em seu repertório. Esta foi uma das primeiras músicas brasileiras de que gostei. Ela dá uma sensação tão boa...Espero que vocês gostem da minha versão".Essa música foi gravada pela primeira vez por Wayne Shorter no disco Native Dancer nos anos 70 e que na ocasião disse ser uma música que exige técnica e alma. Uma das maneiras de conferir a criatividade de um músico e vê-lo tocar uma música muito conhecida e saber o que se pode criar mais ainda. E foi isso que Esperanza provou ao tocar e cantar " Body and Soul". Há quem diga que o espetáculo foi de um virtuosismo exagerado mas hoje para fazer um bom jazz tem que no mínimo ser bom instrumentista e isso foi provado com os cinco em cena. Esperanza esteve em São Paulo e se apresentou no Bourbon Street e Sesc Pompéia mas passou despercebida e para quem compara as duas apresentações percebe que ela está amadurecendo sem virar estrela pop como algumas cantoras da nova geração. Já quase ao final da apresentação ele diz num sorriso maroto de adolescente que ela e seu baixo acústico estavam felizes por se apresentarem no festival. A segunda a subir no palco foi Stacey Kent que muda o clima da apresentação. Ela apresenta seu smooth jazz acompanhado de um quarteto em que tem destaque seu marido, o saxofonista Jim Tomlinson, muito influenciado por Stan Getz. Foi uma apresentação intimista muito comum no final dos anos 50 e início dos anos 60. Uma apresentação correta e não menos envolvente. Cantou coisas da alma que foi desde "Ces Petits Riens" (Serge Gainsbourg), clássicos como "What a Wonderful World", imortalizado por Louis Armstrong, e composições brasileiras, como "Águas de Março" (Tom Jobim)cantado um inglês e Samba da Bênção (Vinicius de Moraes e Baden Powell), este cantado em francês e que serviu de trilha do filme " Um Homem e Uma Mulher". A cada canção uma emoção que dividia no palco com o marido. E por fim Carla Bley arranjadora e compositora de 72 anos e que surpreendeu o público apresentando seu Concerto para Bananas com o Quinteto Banana. Para uma vanguardista como ela um concerto para bananas não surpreendeu ninguém. O concerto tem seis movimentos, One Banana,Two Bananas,Three Bananas, Four Bananas, Five Bananas e One Banana More. Esperava-se uma apresentação bem humorada como sugeriria um concerto para bananas ou pelo um jazz mais latino, Carla Bley surpreendeu fazendo uma música que beira a uma música de concerto de tão refinado e tão bem executado pelo quinteto.Um grande momento jazzístico. A platéia atenta mostrou que muito dos ali presentes eram músicos e que souberam apreciar. Alem do concerto para Bananas Carla apresentou ainda mais 3 músicas onde seu convidado trompetista Michael Rodriguez soube aproveitar.

*Publicado no site Guia da Semana