A imprensa tem noticiado e festejado os 50 anos da gravação do Kind Of Blues mas acho que ficou faltando algumas informações que conferem a gravação sua importância. Miles lembra aquele personagem do conto do “O Perseguidor” do argentino e crítico de jazz Julio Cortaza. Esse personagem é inspirado em Charlie Parker, saxofonista de jazz que virou filme pelas mãos de Clint Eastwood. O personagem busca materializar o som que tem em sua cabeça, perseguia esse som. Miles Davis não era diferente. Era o som de Miles Davis. Isso fica claro quando ao entrar no estúdio, no primeiro ou segundo dia de março de 1959 e mostra um esboço do que todos deveriam tocar. O disco foi gravado em dois dias apenas. Miles soube escolher seus músicos. Estavam lá no estúdio esperando por ele o dois grandes saxofonistas Cannobal Adderley e John Coltrane, os pianistas Wynton Kelly e Bill Evans, o baixista Paul Chambers e o baterista Jimmy Cobb. Miles pensava em Joe Zawinul como pianista mas não deu certo e só iriam tocar juntos mais tarde. Kind Of Blues começou de uma forma modal que Miles experimentara em Milestones. Em sua biografia Miles diz que não precisou de ensaio gravaram direto. A música estava materializada, tinha corpo, estava ali nas fitas gravadas. A participação dos músicos foi tão importante e contribuiu de tal maneira com a característica de cada um que há quem diga que Bill Evans, o pianista, era co autor da musica título do disco. A partir do esboço os músicos ficaram livres para criar e Bill Evan se inspirou em Ravel e Rachmaninoff para fazer sua parte. Miles se surpreende com a repercussão na época. O disco é considerado maravilhoso pelo público e pelos críticos mesmo não conseguindo colocar tudo o que tinha na cabeça pra fora. Esse tipo de criação Miles vai repetir sempre e o segundo grande momento acontece na gravação do antológico Bitches Brew.
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